10 dezembro, 2016

RENAN AFIRMA QUE MARCO AURÉLIO PRECISA DE OUTRA SABATINA



O presidente rĂ©u do Senado e do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse, em entrevista que o ministro Marco AurĂ©lio Mello, do Supremo Tribunal Federal, "com essas decisões atrapalhadas, acabarĂ¡ entrando para a histĂ³ria pela porta dos fundos". Uma das "decisões atrapalhadas" a que o senador se referiu Ă© a liminar da segunda-feira passada, em que o ministro do STF decidiu afastĂ¡-lo da presidĂªncia do Senado. Calheiros e a maioria da Mesa Diretora da Casa nĂ£o assinaram a citaĂ§Ă£o da liminar. Na tarde da quarta-feira ela foi derrubada no plenĂ¡rio do Supremo, por 6 a 3.

Ao criticar Marco AurĂ©lio, o senador foi buscar na memĂ³ria a lei que aumentou a aposentadoria compulsĂ³ria dos ministros do STF dos 70 para os 75 anos. "Minha proposta era que houvesse uma nova sabatina no Senado, mas ele se revoltou e eu acabei retirando", contou. "Mas errei. O Marco AurĂ©lio Ă© um ministro que precisava da nova sabatina".

Por que o senhor nĂ£o assinou a citaĂ§Ă£o da liminar do ministro Marco AurĂ©lio, que o afastava da presidĂªncia do Senado por ser rĂ©u em crime de peculato?

Foi dito ao oficial de justiça, na residĂªncia oficial, que falarĂ­amos com ele Ă s 11 horas do dia seguinte, depois de uma reuniĂ£o da Mesa do Senado. A Mesa do Senado decidiu, no entanto, pela unanimidade dos presentes, que para afastar um presidente de Poder sĂ³ com urgĂªncia caracterizada, decisĂ£o do pleno do Supremo, e direito de defesa assegurado na forma do regimento.

O que se ouviu da maioria dos ministros, durante a sessĂ£o da quarta-feira, Ă© que o senhor e a Mesa desrespeitaram gravemente uma decisĂ£o judicial. O ministro Marco AurĂ©lio citou atĂ© uma fotografia que o mostra na residĂªncia no momento em que o oficial de justiça esteve lĂ¡. Mas eu estava lĂ¡, eu recebi todo mundo, levei alguns visitantes na porta. A orientaĂ§Ă£o que a secretĂ¡ria passou a ele foi a de que o receberĂ­amos no dia seguinte.

Houve alguma insistĂªncia do oficial de justiça para que o senhor assinasse a citaĂ§Ă£o naquele momento?

NĂ£o houve. Ele entendeu a orientaĂ§Ă£o, mas ficou por ali.

O senhor nĂ£o concorda que tenha desrespeitado uma liminar do Supremo Tribunal Federal?

NĂ£o concordo. A mesa decidiu outra coisa - e nada havia a fazer a nĂ£o ser seguir essa decisĂ£o.

Como recebeu a decisĂ£o que derrubou a liminar, por 6 a 3?

Foi uma decisĂ£o patriĂ³tica. Deixou para trĂ¡s tudo o que aconteceu, e significou ganhos para o Legislativo, para o Executivo, para o JudiciĂ¡rio.

Por quĂª?

Porque caracteriza a superaĂ§Ă£o de uma etapa difĂ­cil e complexa da vida democrĂ¡tica. Porque em meio a essa crise toda, preponderou a ConstituiĂ§Ă£o, a separaĂ§Ă£o, a harmonia e a independĂªncia dos poderes.

O que achou da aceitaĂ§Ă£o no Supremo, por 8 a 3, da denĂºncia que o tornou rĂ©u, por peculato?

Eu a recebo como uma oportunidade para demonstrar a minha inocĂªncia e esclarecer os fatos.

8 a 3 foi um resultado expressivo contra o senhor.

Foi. Mas mesmo os votos daqueles que aceitaram a denĂºncia duvidam das condições para a condenaĂ§Ă£o. O que nos deixa com a certeza de que a verdade prevalecerĂ¡. A liminar que o destituĂ­a da presidĂªncia do Senado foi dada por um dos ministros mais antigos, mais experientes e mais respeitados do Supremo Tribunal Federal, Marco...

O que me causa preocupaĂ§Ă£o com relaĂ§Ă£o ao Marco AurĂ©lio Ă© que, com essas decisões atrapalhadas, ele acabarĂ¡ entrando para a histĂ³ria pela porta dos fundos.

O que achou da liminar?

Absolutamente açodada. Com uma denĂºncia de peculato em que nĂ£o existe nem acĂ³rdĂ£o, contra o presidente de um poder que tem procurado manter o Senado no patamar da responsabilidade e do equilĂ­brio.

Na sessĂ£o que derrubou a liminar, o ministro Marco AurĂ©lio, alĂ©m de criticĂ¡-lo fortemente, fez um apelo dramĂ¡tico ao apoio dos colegas - e nĂ£o conseguiu maioria. Na ausĂªncia de argumentos consistentes, tĂ©cnicos, vem sempre o desespero. Aquilo foi um desespero, para transferir ao Supremo a responsabilidade por uma decisĂ£o monocrĂ¡tica. Eu nĂ£o compreendi bem o Marco AurĂ©lio.

Como assim?

Eu sou amigo dele, da sua famĂ­lia. Quando defendi mais cinco anos para a compulsĂ³ria dos ministros do Supremo eu achava que eles precisariam ser sabatinados novamente. O Marco AurĂ©lio se insubordinou, se indisciplinou, e eu retirei essa exigĂªncia do projeto. Mas esses Ăºltimos dias demonstram que foi um erro. Porque alguns ministros nĂ£o precisam se submeter Ă  sabatina. Mas outros, como Marco AurĂ©lio, precisam sim. Devem ser sabatinados.

Nas manifestações de protestos, no domingo passado, o "Fora, Renan" foi marcante, com direito atĂ© a boneco inflĂ¡vel. O senhor responde a onze inquĂ©ritos, e jĂ¡ virou rĂ©u em um deles, o do peculato...

NĂ³s temos uma denĂºncia que foi aceita, da qual eu nĂ£o tenho nenhuma dĂºvida de que serei absolvido. A primeira denĂºncia, a partir da delaĂ§Ă£o do (ex-diretor de PetrobrĂ¡s) Paulo Roberto Costa, jĂ¡ foi arquivada, por falta de provas. SĂ³ que ela ensejou duas outras investigações. Certamente porque, diante da ausĂªncia de fatos para me culpar, eles preferem me condenar pelo nĂºmero de investigações. Isso Ă© surreal. E em todas as outras, se investiga por ouvir dizer, sem prova, sem testemunhas. Eu nunca cometi crime, nem irregularidades.

O senhor estĂ¡ criticando o MinistĂ©rio PĂºblico Federal?

NĂ£o faço crĂ­ticas ao MinistĂ©rio PĂºblico. Sou um daqueles que ajudou a tirar o MinistĂ©rio PĂºblico do papel, na Constituinte. Eu trato o MinistĂ©rio PĂºblico respeitosamente. AtĂ© falei sobre isso com o juiz SĂ©rgio Moro, quando ele esteve aqui, recentemente.

O que o senhor falou?

Eu relatei para ele que trĂªs nomes ilustres do MinistĂ©rio PĂºblico foram rejeitados, pelo Senado, para cargos no CNMP (Conselho Nacional do MinistĂ©rio PĂºblico) e no CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Nem sei por que foram rejeitados. SĂ³ sei que Ă© no mĂ­nimo discutĂ­vel que essas pessoas, na Lava Jato ou em qualquer operaĂ§Ă£o, continuem tomando medidas contra senadores e contra o Senado. 'VocĂª sabia deste fato?', eu perguntei pro Moro. Ele respondeu: 'NĂ£o sabia, senador, realmente eu nĂ£o sabia'. (SĂ£o, como jĂ¡ pĂºblico, procuradores Nicolau Dino da Costa, Vladimir Aras e Wellington Saraiva, hoje atuando na assessoria direta ao procurador-geral da RepĂºblica, Rodrigo Janot).

O senhor acha que existe uma conspiraĂ§Ă£o contra o senhor?

NĂ£o. Mas o presidente do Congresso Nacional encarna sempre as contradições da polĂ­tica. Talvez seja por isso. Talvez a capacidade de fazer me coloque um pouco na ribalta. E os inimigos nĂ£o dormem.

Mas tem um dado novo, que Ă© o seu boneco na rua, o "Fora Renan". NĂ£o tem medo que esse movimento cresça e que a sua queda vire a reivindicaĂ§Ă£o da vez?

Na minha juventude eu fiz muita manifestaĂ§Ă£o. Geralmente por boas causas, cumprindo um papel importante na redemocratizaĂ§Ă£o, na reorganizaĂ§Ă£o do movimento estudantil, um aprendizado que levarei comigo. Eu nĂ£o acredito que seja sincera uma manifestaĂ§Ă£o em defesa de abuso de autoridade, da supressĂ£o das garantias coletivas e individuais, do fim do habeas corpus, e odiando, em primeiro lugar, o presidente do Senado, que nĂ£o Ă© uma personalidade que atraia o Ă³dio.

O senhor tem crĂ­ticas ao SĂ©rgio Moro na conduĂ§Ă£o da Lava Jato?

Eu nĂ£o faço crĂ­tica ao juiz. Ele tem conduzido com muita coragem uma operaĂ§Ă£o que vai mudar o Brasil, que Ă© um avanço civilizatĂ³rio, e que por isso Ă© sagrada. NinguĂ©m vai criar dificuldades para a Lava Jato. Quem tentou embaraĂ§Ă¡-la, jĂ¡ perdeu.

Qual Ă© o seu incĂ´modo, entĂ£o?

Eu sĂ³ acho que operaĂ§Ă£o Lava Jato, que precisa continuar, precisa investigar, precisa esclarecer, precisa, tambĂ©m, separar o joio do trigo. Ela nĂ£o pode envolver igualmente todos, culpados e inocentes. O grande erro da operaĂ§Ă£o MĂ£os Limpas, na ItĂ¡lia, foi que generalizou a investigaĂ§Ă£o, incriminou inocentes e perdeu apoio da sociedade. Seria muito ruim se isso acontecesse com a Lava Jato.

Que liĂ§Ă£o o senhor tira desta Ăºltima crise com o Supremo?

Todos nĂ³s aprendemos muito com esse momento complexo da vida nacional, e eu, diferentemente do que alguns insinuam, fui o grande derrotado. Passei momentos difĂ­ceis, constrangimentos, vivi uma circunstĂ¢ncia que ninguĂ©m desejaria viver, sofri bastante, mas compreendo que tudo isso faz parte do jogo. NĂ£o houve vencidos e vencedores. Quem ganhou foi a democracia. E quando a democracia ganha, nĂ³s sinalizamos para o mundo com a vitalidade das instituições do Brasil. (AE)

SĂ¡bado, 10 de dezembro de 2016

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